EXERCÍCIO AUMENTA A IMUNIDADE E A EFICÁCIA DAS VACINAS

A atividade física regular fortalece o sistema imunológico humano, reduz em mais de um terço o risco de adoecer e morrer de doenças infecciosas e aumenta significativamente a eficácia das campanhas de vacinação. É o que aponta um estudo publicado em abril na revista Sports Med, reunindo pesquisadores de universidades inglesas, escocesas, belgas e espanholas. Mas, afinal, como se dá essa relação exercício físico e imunização? Como o sistema imunológico trabalha em indivíduos fisicamente ativos? O Eu Atleta conversou com a médica infectologista Gabriela Margraf Gehring e com os médicos endocrinologistas e do esporte Ricardo Oliveira e Roberto Zagury sobre o tema, que tem especial interesse em tempos de pandemia e vacinação contra Covid-19.

O estudo

  • Praticar 30 minutos de atividade física cinco dias por semana reduz em 31% o risco de adquirir infecções fora do ambiente hospitalar;
  • Há também a redução de 37% do risco de adoecer e morrer de doenças infecciosas;
  • A atividade física regular fortalece o sistema imunitário humano. Em 35 ensaios clínicos randomizados independentes, a atividade física regular resultou em níveis elevados de imunoglobulina IgA, anticorpo que reveste a membrana mucosa dos nossos pulmões e outras partes do nosso corpo onde o vírus e bactérias podem entrar;
  • A atividade física regular também aumenta o número de células T CD4, responsáveis por alertar o sistema imunológico de um ataque, bem como regular a sua resposta;
  • Nos ensaios clínicos randomizados, as vacinas parecem mais eficazes se forem administradas após um plano de atividade física. Uma pessoa que é ativa fisicamente tem 50% mais chance de ter uma contagem de anticorpos mais alta após a vacina.

Neste estudo, no qual foram compilados dados de mais de 500 mil indivíduos, a prática regular de exercício físico se associou a uma redução de 31% no risco de infecções adquiridas fora do ambiente hospitalar e de 37% na chance de morte decorrente de tais infecções. Foi feita uma revisão sistemática com metanálise, ou seja, analisou-se os dados de diversos estudos anteriores que avaliaram o impacto do nível de atividade física dos indivíduos com risco de infecção, levando em conta o sistema imunológico e a resposta vacinal. O que o estudo encontrou, analisando pesquisas publicadas até 2020, foi que indivíduos com maiores níveis de atividade física (moderada ou intensa e regular) obtiveram um menor risco de infecção, uma melhor resposta de algumas células de defesa e uma melhor resposta vacinal quando comparados a indivíduos com menor nível de atividade física.

– Os pesquisadores perceberam que os indivíduos que praticam atividade física regularmente obtiveram conclusões muito interessantes, como mais de 30% menos chance de adquirir uma infecção comunitária, ou seja, infecções que pegamos no dia a dia, e não infecção hospitalar. Além disso, caso alguma infecção seja contraída, há quase 40% menos chance de morrer por esta causa. Foi percebido também que esses pacientes ativos fisicamente aumentaram muito a contagem de células CD4 em comparação com indivíduos que não praticavam atividade física. Essas células CD4 representam um tipo de linfócito, o qual é muito importante para nossa imunidade. Um outro dado muito interessante foi o do aumento da concentração de imunoglobulina IGA na saliva, a qual também faz parte da nossa imunidade. Então, às vezes, o organismo (vírus) chega na via aérea ou na boca, por exemplo, e com a imunoglobulina já em grande quantidade, esse vírus não consegue entrar no corpo e se desenvolver – aponta a infectologista Gabriela Gehring.

Ainda segundo a médica, uma outra conclusão muito interessante do estudo foi que, após os indivíduos que praticavam atividade física regular tomarem qualquer tipo de vacina, os pesquisadores observaram que o nível de de anticorpos pós-vacinas são maiores nessa população do que naquela que não pratica exercício físico regularmente.

Exercício físico e sistema imunológico

A atividade física regular aumenta a contagem de células CD4 e a concentração da imunoglobulina IgA na saliva, o que fortalece o sistema imunológico. Para que os benefícios advindos da atividade física sejam conferidos, é necessário uma constância em sua prática. Exercícios físicos regulares significam praticar:

  • De três a cinco vezes na semana;
  • De 30 a 90 minutos por dia, alcançando um mínimo de 150 minutos semanais, mas de preferência 300 minutos semanais;
  • Por pelo menos quatro semanas para que os efeitos dessa atividade comecem a ser percebidos.

Ou seja, o mais importante é manter uma boa frequência na prática de exercício físico. Afinal, a partir dessa regularidade, como foi apontado no estudo, aumenta-se a contagem de células CD4 e a concentração da imunoglobulina IgA na saliva, o que fortalece o sistema imunológico, protegendo-nos contra invasões de micro-organismos dos mais variados tipos.

– Os mecanismos por trás deste benefício são extremamente complexos e ainda muito pouco compreendidos. Apesar disso, este trabalho ajuda a “jogar um pouco de luz” sobre o tema: ao se atingir os níveis mínimos recomendados pelas sociedades médicas de 150 minutos de exercício aeróbio de moderada intensidade por semana, houve aumento nas concentrações de IgA salivar. O que seria isso? Um tipo de anticorpo, presente na saliva humana e muito importante no que diz respeito as nossas defesas contra infecções de vias aéreas. Algo como a primeira linha de defesa do nosso corpo. Além disso, observou-se uma melhora nos níveis de linfócitos T CD4, células responsáveis por uma série de eventos no nosso sistema imunológico. Devemos lembrar que indiretamente o exercício também pode ajudar no combate às infecções, uma vez que exerce efeito anti-inflamatório e pelo fato de reduzir a ocorrência de doenças como obesidade e diabetes, condições estas sabidamente associadas a processos infecciosos e também relacionadas a evolução com maior gravidades uma vez que a infecção já foi adquirida – explica o endocrinologista Roberto Zagury.

De acordo com o também endocrinologista Ricardo Oliveira, é muito importante destacar a relação entre atividade e resposta imune. A atividade física, assim como um medicamento, tem dose e tem que ser dada em uma “faixa terapêutica”. Por exemplo, um remédio dado em uma dose abaixo ou acima da recomendada não irá funcionar e pode trazer até malefício. Com a atividade física também é assim.

– Estudos observacionais apontam para uma espécie de curva em U relacionando o nível de atividade física e infecção; ou seja, pessoas que fazem pouca atividade física, como as pessoas sedentárias, têm o maior risco de infecção, bem como pessoas que fazem atividade física em excesso podem ter maior risco de infecção. Dito isso, é importante essa relação da atividade física em um volume de treinamento adequado. Atualmente, preconiza-se 300 minutos semanais, dos quais, pelo menos, 150 minutos de atividade em intensidade moderada e, destes 150 minutos restantes, pelo menos, 75 minutos de atividade física de alta intensidade – aponta o médico.

Já que pouco exercício pode prejudicar a sua imunidade e exercício em excesso, por outro lado, também pode, chega-se à conclusão de que os extremos são prejudiciais. Nesse sentido, segundo Roberto Zagury, a palavra de ordem é equilíbrio. Programas de exercício de moderada intensidade perfazendo um total de 150 minutos por semana podem ajudar a fortalecer o sistema imunológico, auxiliando na prevenção de doenças infecciosas. Além disso, podem ajudar a melhorar a resposta do corpo às vacinas. E por fim, reduzir o risco de se evoluir para óbito depois de já adquirida a infecção.

Exercício físico e a eficácia das vacinas

De acordo com ensaios clínicos randomizados, as vacinas parecem mais eficazes se forem administradas após um plano de atividade física. Isto é, uma pessoa que é ativa fisicamente tem 50% mais probabilidade de ter uma contagem de anticorpos mais alta após a vacina do que aquelas que não praticam exercícios físicos regularmente. Mas, afinal, qual a relação entre eficácia vacinal e atividade física? Segundo Ricardo Oliveira, não se sabe ao certo o possível mecanismo, mas conforme já visto em outros estudos, em relação a campanhas de vacinação contra a gripe, pessoas fisicamente ativas vacinadas tiveram uma melhor resposta sorológica vacinal, ou seja, uma produção de anticorpos mais eficaz após a aplicação de determinada vacina.

– Embora não se saiba exatamente o mecanismo, é possível que a atividade física melhore outras condições metabólicas, como obesidade e diabetes, condições estas que diminuem a resposta vacinal. Então, o exercício talvez possa ser uma estratégia importante pra diminuir, por exemplo, a obesidade e isso possa ajudar também na produção do anticorpos. Sugere-se então que se pratique pelo menos 150 minutos de atividade física semanal durante três a quatro meses antes da vacinação. Então talvez essa seja uma estratégia: praticar atividade física por pelo menos esse período de tempo antes da vacinação para que se amplifique a resposta vacinal – analisa o médico endocrinologista e do esporte.

Como Ricardo aponta, o exercício físico também minimiza o risco de doenças endócrinas, que diminuem a resposta vacinal. Isso porque diversas condições endocrinológicas, como obesidade e diabetes, podem ser consideradas como estados de imunossupressão. Ou seja, situações nas quais o nosso sistema de defesa não funciona tão bem quando deveria.

– No caso do diabetes, isso é mais evidente quando a doença está mal controlada. Ou seja, quanto mais elevada a taxa de glicose no sangue, maior o risco de uma série de infecções. Por exemplo: tuberculose é mais comum em pessoas com diabetes; infecções fúngicas genitais podem ser a primeira manifestação clínica do diabetes; e, claro, como tomou notoriedade recentemente, ter diabetes ou obesidade aumenta o risco de formas graves de Covid-19. Sendo assim, o exercício físico regular, ao longo da vida da pessoa funciona como uma ferramenta de prevenção contra o desenvolvimento das referidas condições – explica Roberto Zagury.

Alguns estudos apontam que doenças endocrinometabólicas, em especial a obesidade e a resistência insulínica, podem desempenhar um impacto negativo sobre a imunidade e, por conseguinte, um maior risco de infecção. Afinal, de acordo com Ricardo Oliveira, nessas situações, talvez a inflamação crônica sistêmica causada por essas doenças possa já desviar a atenção do nosso sistema imunológico de modo que, quando ele é solicitado, parte desse sistema imunológico já esteja envolvido em outros processos relacionados à inflamação. Então, a atividade física, melhorando doenças como obesidade e resistência insulínica, pode levar à melhora da inflamação sistêmica e, assim, com uma menor inflamação sistêmica, o organismo pode ter uma resposta imune mais eficaz.

Este novo estudo pode ter um impacto significativo, principalmente na pandemia que estamos vivendo. A infectologista Gabriela Gehring ressalta que é importante orientar os pacientes em relação a ter uma constância na prática de atividade física, pelo menos de moderada intensidade. Afinal, já foi comprovado que se manter ativo fisicamente reduz o risco de manifestar as formas mais graves da Covid-19 e até de ir a óbito pela doença. Dessa forma, a atividade física entra como um dos principais meios de prevenção, junto da vacina, do isolamento social, do uso de máscaras e da higiene das mãos.

– Que tal dar uma forcinha para vacinas contra a Covid-19 retomando sua rotina de exercícios? Lembrando da necessidade do uso de máscara e de dar preferencia para atividades ao ar livre, evitando aglomerações. Negar os benefícios do exercício em termos imunológicos deve ser visto hoje como uma irracionalidade tão grande quanto negar que o único caminho para sairmos desta pandemia é a vacinação. Vacinação e exercício já, para todos! – conclui Roberto Zagury.

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